O Ministério da Saúde começou, em 2026, a primeira Pesquisa Nacional de Saúde Mental do Brasil, o maior levantamento já feito sobre o tema com a população adulta do país. E o dado que já circula confirma o que muitos consultórios já sabiam: o Brasil lidera o ranking mundial de ansiedade, com quase 1 em cada 10 pessoas afetadas.
Não acho isso uma má notícia. Acho que é a primeira vez que o país vai medir isso de verdade, e o que não se mede, não se trata direito. No consultório, vejo todos os dias como a ansiedade aparece disfarçada: numa briga que não devia ter escalado, numa mensagem reescrita cinco vezes antes de enviar, num silêncio que virou parede entre duas pessoas. Esse número alto não revela um povo fraco. Revela um povo que finalmente está sendo enxergado.
Por anos, a saúde mental no Brasil foi tratada como algo reservado aos casos extremos, para quem "realmente precisava de ajuda". O que a clínica mostra, e o que a pesquisa em saúde mental confirma, é que a ansiedade subclínica (aquela que não fecha critério diagnóstico, mas já compromete a qualidade de vida) é muito mais prevalente do que qualquer levantamento pontual conseguia captar. Agora, com uma metodologia robusta e abrangente, teremos dados para criar políticas públicas que façam sentido de verdade.
Ansiedade não é frescura, não é fraqueza e não é escolha. É uma resposta do sistema nervoso que aprendeu a disparar no momento errado, com intensidade desproporcional ao risco real.
Ansiedade raramente chega sozinha
O jeito como alguém lida com a própria ansiedade molda diretamente o jeito como se relaciona, e as duas coisas nunca vêm separadas. Ansiedade não tratada tende a se manifestar em irritabilidade, dificuldade de confiar, necessidade de controle, ou o oposto: paralisia diante de decisões simples. Na literatura da TCC, chamamos de comportamentos de segurança as estratégias que a pessoa usa para evitar o desconforto ansioso no curto prazo, mas que a mantêm presa no ciclo no longo prazo.
Um padrão que se repete bastante: alguém procrastina uma conversa difícil porque antecipar o conflito já gera ansiedade. O alívio imediato de evitar é real, mas o problema não resolvido cresce, a tensão no relacionamento aumenta, e na próxima vez que a situação surgir, a ansiedade está ainda mais intensa. A TCC chama isso de ciclo de evitação, e ele é um dos mais comuns que encontro no consultório.
A ansiedade também distorce a leitura das situações. Na TCC, trabalhamos muito com pensamentos automáticos negativos: aquelas interpretações rápidas, quase instantâneas, que surgem sem que a pessoa perceba e que tendem a superestimar o perigo e subestimar a própria capacidade de lidar. "Vão me julgar", "vou fracassar", "não vou conseguir dar conta" são exemplos típicos. O trabalho de reestruturação cognitiva é justamente identificar esses pensamentos, questionar a evidência que os sustenta e construir interpretações mais equilibradas e realistas.
- Dificuldade de relaxar mesmo em momentos de descanso programado.
- Pensamentos repetitivos sobre o mesmo assunto, sem chegar a uma conclusão.
- Tensão física constante (mandíbula, ombros, estômago) sem causa médica identificada.
- Irritabilidade desproporcional a situações pequenas do dia a dia.
- Necessidade de checar repetidamente mensagens, e-mails ou situações para garantir que está tudo bem.
- Dificuldade para tomar decisões simples por medo de escolher errado.
- Sensação de que algo ruim está prestes a acontecer, mesmo sem motivo concreto.
O que a ansiedade faz com os relacionamentos
Esse é um dos pontos que mais aparecem no consultório. A ansiedade não é um problema individual isolado: ela repercute em quem está perto. Parceiros, filhos, colegas de trabalho, amigos próximos, todos absorvem de alguma forma os efeitos de uma ansiedade não tratada.
O que a pesquisa em apego mostra é que adultos com padrões de apego ansioso (aqueles que cresceram em ambientes imprevisíveis ou pouco responsivos) tendem a hipervigilar os relacionamentos: buscam reasseguramento constante, interpretam neutralidade como rejeição e oscilam entre aproximação intensa e afastamento defensivo. Isso não é drama nem exagero. É um sistema nervoso que aprendeu a funcionar assim para sobreviver, e que precisa de suporte especializado para aprender novas formas de responder.
Na TCC, o trabalho com esses padrões envolve tanto a identificação dos pensamentos que disparam o ciclo (por exemplo: "ele demorou para responder, então está com raiva de mim") quanto a exposição gradual a situações de incerteza, para que a pessoa possa tolerar o desconforto sem recorrer aos comportamentos de segurança que alimentam o ciclo ansioso.
Medir é o primeiro passo, tratar é o segundo
Uma pesquisa nacional é um passo importante para a política pública. Mas, individualmente, o primeiro passo continua sendo o mesmo de sempre: reconhecer que o que você sente tem nome, tem causa e tem tratamento, e que não precisa esperar a próxima crise para buscar ajuda.
Abaixo estão três orientações práticas que uso com frequência no início do trabalho terapêutico. Elas não substituem o processo clínico, mas podem ser um ponto de partida antes da primeira consulta:
- Registre os momentos de ansiedade: anote quando ela aparece, o que estava pensando e o que fez em seguida. Esse registro simples já começa a criar consciência sobre o padrão.
- Observe seus comportamentos de evitação: o que você tem adiado por conta do desconforto que antecipar aquela situação gera? A lista costuma ser mais longa do que parece.
- Questione a catástrofe: quando a ansiedade disser "vai dar muito errado", pergunte a si mesmo qual a evidência real disso e o que aconteceria se realmente desse errado. Muitas vezes, a capacidade de lidar é maior do que a ansiedade deixa ver.
O Núcleo Entre Sessões conta com psicólogos especializados em TCC que trabalham com ansiedade, relações e bem-estar emocional. Se você se identificou com algum ponto deste texto, esse pode ser um bom momento para dar o próximo passo.
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